domingo, 9 de junho de 2013


Finalizo minha agradabilíssima leitura do romance “A última página”de Michael Krüger, uma excelente tradução de Sérgio Tellaroli. Richard, o personagem narrador, é um escritor alemão bem-sucedido em decorrência de seus relatos sobre os índios brasileiros num livro traduzido em diversos idiomas. Porém Richard nada mais é do que o usurpador do trabalho de seu assistente, o judeu Leo, que meio século depois ressurge para um digno acerto de contas.

"Não é o medo da morte que nos faz pensar na imortalidade, mas é o desejo de ser imortal que atiça em nós o medo da morte – dizia Leo com frequência, citando um filosofo austríaco. A consciência da morte, da mortalidade, está no princípio do ato de narrar. Esse era um dos comentários que ele fazia, quando eu não sabia mais o que fazer. Agora eu não sabia mais o que fazer."

Ao final da vida, Richard tem um sucesso que ele próprio rejeita. Sem nenhuma atração pelo mundo que o cerca, mergulha numa rica e introspectiva reflexão. O perspicaz Richard, apesar de ranzinza e covarde, revelou-se uma excelente companhia pela leitura crítica que o personagem desenvolve sobre o homem e seu caráter.


"Vivo, pois, sozinho com um cachorro. E, aliás, não para imunizar-me contra o “mundo”, o que seria cômico na minha idade, mas sim como consequência e síntese de meu passado. Quem esteve na floresta conhece a tentação da mudez. Quem alguma vez contemplou a profusão de estrelas no céu noturno tropical não precisa mais de companhia alguma para definir o próprio lugar frente à eternidade dos elementos. O mundo retira-se de nós, não precisamos nos adiantar a ele. As catacumbas da memória desmoronam e soterram aquilo de que éramos feitos, e, na medida em que nossa memória se vai, vai-se o mundo também. O amargo ressentimento que me sufocava deu lugar a uma profunda indiferença. É tão fácil ser só, viver sozinho quando se tem um cachorro por perto." [p. 67]

0 comentários:

Postar um comentário