sexta-feira, 14 de junho de 2013



 É bastante controverso, mas o romance de  Gustave Flaubert é talvez um dos grandes expoentes feministas na literatura universal. Questionando as convenções burguesas de seu tempo, sem ser moral ou imoral, e sim amoral, o termo que grandes pensadores usaram para chegarem próximos da verdade.
 
É justamente por ser o contrário do que se espera de uma mulher que Emma, a personagem principal, dá um salto na literatura francesa, até então composta de heroínas inalcançáveis, puras, submissas e romantizadas. 

Vamos colocar as coisas em perspectiva e irmos à história.

No começo do séc. XIX, Emma é uma moça que vive com o seu pai, numa zona rural no interior da França. Quando seu pai adoece, Charles Bovary, um médico modesto, os visita e acaba se interessando por Emma, que, sem nenhuma alternativa, vivendo distante da civilização, não tem escapatória a não ser casar-se com o primeiro que aparecesse no "fim de mundo" onde vivia. O que não faz de Emma uma noiva exatamente feliz, mas conformada por sair da casa do pai. As disparidades entre Emma e Charles começam pelo fato de seu marido ser notoriamente um homem medíocre, que mal conseguiu formar-se médico e que não tinha ambições profissionais ou pessoais. Enquanto Emma era culta, leitora voraz e uma grande sonhadora. 

"Tinha necessidade de tirar de tudo uma espécie de benefício pessoal e rejeitava como inútil o que quer que não contribuísse para a satisfação imediata de um desejo do seu coração - tendo um temperamento mais sentimental do que artístico e interessando-se mais por emoções do que por paisagens."

Para agradar a esposa, Charles à leva para uma festa no castelo de Vaubyssard, deixando Emma deslumbrada por aquele universo de riqueza ao qual nunca tivera acesso. Ao retornarem, Emma ver sua vida fadada à pobreza material e espiritual, vendo os dias correrem uns após os outros sem nada acontecer.
 
" O coração ficou-lhe novamente vazio e começou outra vez a série dos dias todos iguais. Iam então agora seguir-se assim em fila, idênticos uns aos outros, inumeráveis, nada trazendo de novo! As outras existências, por muito monótonas que fossem, contavam, pelo menos, com a possibilidade de qualquer acontecimento. Imprevisto. uma aventura trazia às vezes consigo peripécias sem fim e o cenário transformava-se. mas, para ela, nada acontecia. deus assim o quisera! "

Emma convence o marido a se mudarem para Yonville, onde Emma engravida e conhece o estudante de direito Léon, por quem se apaixona e seu sentimento é recíproco. Sem saber que é correspondido, Léon se muda para Paris.  

Emma, com fogo na saia, se entrega aos braços do aristocrata Rodolphe em seu castelo. E Charles, bocó, nem para notar nem uma coisa nem outra. 

"O que a exasperava é que Charles não dava a impressão de suspeitar do seu suplício. A convicção que ele tinha de a fazer feliz parecia-lhe um insulto imbecil e a segurança que revelava a esse respeito ingratidão. Por causa de quem se comportava ela tão escrupulosamente? Não era ele o obstáculo a toda a felicidade, o motivo de toda a desgraça, como que o bico da fivela a travar aquela complexa correia que por todos os lados a amarrava? "

 
O farmacêutico Homais, amigo de Charles e Emma em  Yonville, vez ou outra compõe diálogos e reflexões consideráveis sobre a moral católica, dignas de nota:
 
" - Tenho uma religião, a minha religião, e até tenho mais que todos eles com as suas momices e imposturas ! Pelo contrário, creio em Deus ! Creio no ser supremo, num Criador, seja ele quem for, pouco importa, que nos pôs neste mundo para cumprir os nossos deveres de cidadãos e chefes de família; mas não tenho necessidade de ir a uma igreja beijar salvas de prata e engordar à minha custa uma cambada de farsantes que vivem melhor do que nós ! Posso honrar a Deus da mesma maneira num bosque, num campo, ou até contemplando a abóbada etérea, como os antigos. O meu Deus é o mesmo de Sócrates, de Franklin, de Voltaire e de Béranger ! Eu sou pela profissão de fé do vigário saboiano e pelos princípios imortais de 89 ! Por isso não admito que Deus seja assim um sujeito que ande a passear no seu jardim de bengala na mão, instale os seus amigos no ventre das baleias, morra soltando um grito e ressuscite ao cabo de três dias: coisas absurdas por si mesmas e completamente opostas, além disso, a todas as leis da física; diga-se de passagem que tudo isso prova que os padres estagnaram sempre numa torpe ignorância, onde se esforçam por atolar também as populações. "
 
Quando Emma  passa a ter um caso com um aristocrata, por quem verdadeiramente não estava apaixonada, o que me passa é que Emma tão jovem, tão sozinha e tão vazia(ao mesmo tempo cheia de quereres e sonhos), busca amparo nas experiências mais superficiais, mais fúteis, para saciar o seu desespero de imediato, vislumbrando le charme discret de la bourgeoisie. Um sofrimento que na verdade habita nas profundezas de suas correntes, que nascem da condição feminina e da impossibilidade de libertação.
 
“Um homem, pelo menos, é livre; pode percorrer as paixões e os lugares, atravessar os obstáculos, consumir as felicidades mais distantes. Mas a mulher é impedida continuamente. Inerte e flexível a uma só vez, tem contra si as molezas da carne com as dependências da lei. Sua vontade, como o véu de seu chapéu preso por um cordão, palpita a todos os ventos; há sempre algum desejo que carrega, alguma conveniência que detém.”
 
Mesmo que a traição e o adultério não seja, para nenhum dos gêneros, um sinal de força de caráter, Emma tinha força de vontade e resistia contra a ideia de matar seus desejos e ceder a um destino infeliz que já estava traçado. O seu caso com  Rodolphe foi breve, mas quando acabou Emma estava arrasada, não pela separação em si e a fuga do amante, mas por retornar ao status co, entrando em depressão e chegando a adoecer.
 
Tempos depois Emma volta a encontrar Léon e eles finalmente consomem sua paixão. Cof cof. Daí começam as crises de consciência. Emma, tipicamente, se sente culpada e recorre a religião. Léon se compromete a não pecar novamente e dá o caso por encerrado.  Mas eles voltam a se reencontrar e cada vez mais confusos,  Emma se enfurece com sua clandestinidade.
 
"Enojava-se, entretanto, daquela hipocrisia. Tinha tentações de fugir com Léon para qualquer parte, muito longe, tentar um destino novo; mas logo se lhe abria na alma um abismo de confusão, cheio de negrume. "ainda por cima, não me ama", pensava ela; "qual vai ser o meu futuro? que ajuda posso esperar, que consolação, que alívio?""   

Às voltas com o seu caso de amor, Emma endividava-se com os presentes que comprava para Léon, de modo que a dívida chegou ao ponto de ser cobrada judicialmente. E foi na hora do aperto que todos se esvaíram.  Nem Rodolphe, nem Léon estenderam a mão para Emma, e na eminência de ver sua casa penhorada a mulher comete suicídio bebendo arsênio.
 
“Não estava feliz, nunca tinha estado. De onde vinha então essa insuficiência da vida, essa podridão instantânea das coisas em que ela se apoiava?” 
 

“Tudo e ela mesma lhe eram insuportáveis.”

Diante da incógnita:  "qual vai ser o meu futuro? " que chances Emma tinha? 

Uma mulher insensata? Sim, mas que alternativa ela tinha para ser feliz se não a insensatez? 

Não quero finalizar o texto com um tratado feminista, mas quero abrir a discussão para o questionamento dos dogmas fundamentalistas. Um exercício simples (e talvez clichê) é imaginar se fosse na verdade Charles Bovary quem tivesse um caso com uma aristocrata e com uma estudante de direito e Emma uma mulher submissa, que repercussão a história teria? 

Provavelmente passaria indiferente.
machismo retrógrado, até quando?
Mas como estamos falando de uma mulher, Flaubert foi tido como autor de um livro escandaloso, imoral, obsceno e foi levado à tribunal, sendo julgado e absorvido sob várias condições.  Isso há mais de cem anos, mas são muitos os que pararam no tempo!

2 comentários:

  1. Adorei a resenha, Lia... principalmente os comentários audaciosos sobre os namoricos de Emma. -rs

    Ainda não li o livro, vi apenas o filme e gostei bastante, não vejo a hora de me deleitar nesta literatura. ^^

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    1. Vale super a pena, é um livro excelente, Sami! ;)

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